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Considerações sobre o Retorno do Real, de Hal Foster

Breves considerações sobre o texto O retorno do real, o Olhar lacaniano e a obra de arte.

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1 – Num século de máculas, dores e traumas como o vinte, se fez quase que oportuno à humanidade – homem e branco – começar a pensar as coisas do sonho e do dentro. Ainda que a história não seja teleológica e não seja oportuno, em muitos casos, sobretudo dentro da perspectiva acadêmica, pensar as coisas sob a ótica de um certo destino, poder-se-ia, alguém desavisado, andando pela fina estrada da história; não uma estrada em linha única, mas antes uma com um emaranhado de linhas subterrâneas, tal qual o metrô mais evoluído de que jamais se teve notícia – algo como a wood wide web:  plantas que se conectam em suas raízes em uma comunicação complexa que alude à rede de neurônios do ser humano; encontrar, tecer, tantas similitudes, sincronicidades e coincidências entre os acontecimentos deste século que pensaria ele, desavisado como é, ter sido coisa escrita por alguém de algum lugar. 

2 – E como um combatente orgulhoso que, estando ferido mortalmente ou não, mas de maneira aguda e dolorosa, mais: vergonhosa, esconde seu ferimento das moscas e outros seres rastejantes que podem fazer-lhe mal, mas sobretudo de outros homens – ênfase nos inimigos, assim foi a humanidade branca do século vinte escondendo-se das máculas de suas próprias atitudes que já ali começavam a destruir o planeta que chamamos lar. Não haveria como ser diferente na arte, visto que ela é, também, esse substrato social. Algo de negação ou dissimulação haveria de surgir incontrolavelmente nela, tal qual aquela da filha presa dentro de casa pelos pais, que impedida de viver, cria um repertório de mentiras e fotos de lugares para enviá-los quando ousa viver. 

3 – O Real; esse registro lacaniano que Hal Foster fala constantemente no texto “O retorno do real” (aqui em alusão ao  “retorno do recalcado” de Freud); trata daquilo que sempre escapará  de nós por sua magnitude. Não se pode compreender o Real, nem tampouco capturá-lo. Em outras palavras, o Real joga primeiro suas próprias regras e se impõe a todos nós que, diante de uma grandeza incomensurável, a de um  Cthulhu, tentamos absorvê-lo em uma “tradução livre” sempre redutora para que as coisas nos façam algum sentido, isto quando optamos pela via mais fácil, mas nem por isso menos enganadora: a negação ou o recalcamento do Real.

4 – A Obra de arte nos devolve o olhar que a desferimos quando de nosso encontro. Hal Foster cita Lacan numa frase belíssima: “…A figura está certamente dentro de meus olhos. Mas eu, eu estou na figura…”(FOSTER, p.170). Neste quase flerte há similitudes com a transferência entre psicanalista e paciente em clínica. A Obra ganha autonomia e passa a “dialogar com seu espectador”. E este olhar, o da obra, nos constrange, mais: inverte a situação: agora o sujeito da representação é quem a observa, não o objeto representado, isso , claro, se houver disponibilidade por parte deste observador. E nesse sentido, o observador enquadrado pelo olhar da Obra torna-se o quadro. Novamente: se houver disponibilidade e disposição, “o observador pode ver-ser a si mesmo olhando”. (Alexandre Sá) 

5 – Na repetição residem muitas questões. A pacificação do repetido é uma; a consagração do repetido, outra; e a repetição pode, também, criar uma espécie de muro normalizador, que nos cega, pois pelo excesso perde-se a assimilação do repetido. Mas não é o que Foster aponta em Warhol: nele, o artista, a repetição faz com que as questões repetidas retornem adiante. Trata-se de uma repetição muito hábil, ambivalente, que reifica, apazigua, mas que quando de seu retorno, problematiza, nos expõe a nós mesmos, tal qual alguém que olha a si mesmo morrendo enquanto absorto na repetição de itens consumo, ou da própria morte de outrem. Morte esta consumada sempre, portanto não há o que se fazer quanto a isso. E não havendo o que se fazer, mais uma vez, ficamos constrangidos, de certa forma conciliados conosco mesmos, mas antes de mais nada, sem muitas respostas. E logo há de vir mais um retorno. E de novo. Até que as sínteses ocorram todas, ou não. Não se pode se banhar no mesmo rio, não se esgota o olhar da Obra.

Referências bibliográficas
(ou o que me influenciou nesta escrita)

FOSTER, Hal. O Retorno do Real. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.

Texto “O que é um quadro”, de Lacan, presente no seminário 11, capítulo 9.

Gaia Ciência, de Nietzsche, especialmente o aforismo 276.

Os subterrâneos – Artigo de Roberto MacFarlane publicado na revista piauí.

Seminário “arte e psicanálise” com Alexandre Sá.

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