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Chegou o inverno – Eliminando a procrastinação 2

Olá, queridas e queridos! hoje eu retorno para falar mais um pouco sobre a procrastinação e relatar um pouco mais da minha pesquisa e produção semanal. Como disse anteriormente, essa é uma das minhas estratégias para deixar de procrastinar e tem dado muito certo.

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Muitos souberam que eu tive chikungunya, até porque eu disse algumas vezes pelas redes. Passados quase dois meses, e sentindo a melhora quase completa do meu corpo, estou retomando a minha rotina de exercícios, além de outras atividades que estavam paradas porque não estava me sentindo 100%. Para vocês terem uma ideia, até a minha rotina de leitura foi alterada. Nunca tinha experimentado uma doença que comprometesse de tantas formas a minha rotina, por isso estou muito grato por estar de volta.

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E as sequelas? Bom… tirando uma dor nas juntas da minha mão, que me impede de estalar os deus (e eu adorava estalar os dedos), tudo bem. Vamos ao que interessa!

Sobre a produção – rompendo a procrastinação parte 2

Tem sido muito gratificante para mim sentir que estou pondo a mão na massa, pois projetos precisam ser concretizados para darem retorno, seja financeiramente, seja emocionalmente. Tenho um projeto, por exemplo, que ainda não saiu se concretizou, apesar de ser umas das coisas mais sinceras que eu já pensei. O que está faltando? Concretizar.

Mas é tão simples assim? Claro que não. Foi necessário algum tempo pensando quais seriam os instrumentos que me permitiriam concretizá-lo. Concluí que me falta tempo. Desde então estou trabalhando para ter mais tempo livre na minha agenda para esse projeto em específico, mas e os outros?

Cada projeto tem a sua demanda específica

É muito importante ter isso em mente: cada projeto tem sua demanda específica. Portanto, é importante ter em mente que nesse início da organização (nos primeiros passos) passos curtos devem ser dados, ou seja, fazer uma coisa de cada vez. Por exemplo: quero fazer muitas outras coisas, inclusive um curso online, mas por ora não tenho tempo para isto. E aí entra a disciplina: estou tocando o que dá para gradativamente ir aumento o escopo da minha produção. Assim eu aumento as minhas chances de ser bem sucedido nos projetos. Recomendo.

Lembra da agenda?

Na última semana dei a dica da agenda. começaram a usá-la? É um primeiro passo importante… Mas hoje vão mais três dicas:

  • Anote ou compartilhe a sua produção diária com amigos/conhecidos;
  • Coletando as experiências diárias, faça um recorte semanal delas;
  • Anote ideias todo o tempo (uso o google keep para isso).

Gostou das dicas? Aplique-as essa semana e me diga o que achou. Na próxima semana trago novas dicas.


Diários

Os diários, como já disse na última semana, são ótimas ferramentas, talvez as melhores no sentido de criação de um repertório visual. Uma vez vi o ilustrador de ascendência japonesa Hiro Kawahara chamá-los de “Codex visual”, achei legal e incorporei no meu repertório. Os diários diminuem muito a chance de um “bloqueio criativo”, pois com a prática de catalogar as experiências e codificá-las visualmente você cria um acervo que pode te ser útil em projetos futuros. Como já disse antes, recomendo e muito.


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Sobre arte

Hoje eu quero fazer uma recomendação apenas: assistam esse documentário sobre o Paul Klee. Em seguida deem um pulo na exposição sobre ele que está no CCBBRJ


Sobre o trabalho

A série sobre divas brasileiras

Está rolando no meu Instagram uma série sobre divas nacionais. Até o momento foram postadas artes em homenagem a Pocah, Pabllo Vittar, Iza e Gloria Groove. Os desenhos vocês podem ver abaixo.

Desenhado da Pocah! Adeus procrastinação!
Pocah!
Pabllo Vittar
Iza
Gloria Groove

A MAD acabou…

Obrigado por tudo, MAD.⬇️

Fiquei sabendo que a MAD encerrou as suas atividades e preciso prestar a minha homenagem particular. • 
Cresci lendo a revista e sempre foi uma meta de vida desenhar pra ela, coisa que consegui realizar e que me deixa muito feliz.

Nas três fotos vocês conseguem ver três momentos diferentes da minha vida. A primeira é o meu primeiro desenho digital, feito num mouse. A segunda foi a minha contribuição para o salão de humor da MAD de 2009. E a terceira foi uma capa que fiz em 2014. •
A MAD foi uma experiência incrível, aprendi e aprendo com as pessoas que lá trabalhei, sobretudo com o Rapha, que se tornou um grande amigo.
• 
Agora a MAD é história. O espírito de um tempo bonito que tivemos a honra de compartilhar, para nosso privilégio.

Um desenho do Alfred E. Newman que eu fiz em 2010.
Esse desenho chamou a atenção do editor da revista que começou a me chamar para colaborações esporádicas.

Você pode ver mais colaborações minhas para a MAD clicando aqui.

Leia o relato do Raphael Fernandes, que foi editor da MAD brasileira por 10 anos clicando aqui.

Leia a matéria sobre o fechamento definitivo da MAD americana clicando aqui.

Pintura com Ana Alves

Nessa semana rolou a última aula da disciplina “Pintura – processos e modalidades” que tive a honra e prazer de fazer com a professora Ana Alves lá no INSTITUTO DE ARTES DA UERJ.

Ana foi sempre gentil e generosa. Talvez uma das professoras mais generosas que eu tenha tido na vida. A experiência ficou. Uma experiência bonita e singela.

Trabalhos da turma expostos ao chão. Os meus são os dois do canto inferior direito.
É bom frisar que nós mesmos confeccionamos as tintas com o direcionamento da Ana, o que foi uma experiência incrível.

Sobre os textos

Eu tenho um gato. O nome dele é Pequeno. Também tenho dois cachorros, mas hoje quero falar do gato. Pequeno foi encontrado no lixo, por isso tem muita dificuldade de confiar. Ele sempre está dentro de casa, nunca foi à rua. Agora, enquanto escrevo, pequeno está aqui do meu lado, deitado na cama de um dos cachorros. Para entender o amor de um gato é necessária certo refinamento. O gato é uma pessoa muito diferente da pessoa que é o cachorro. O amor do gato é singelo, do tipo que entrega cartinhas.

Pequeno me entrega cartinhas toda manhã, quando se esfrega pelas minhas pernas depois que eu lhe coloco a refeição matinal.


Uma animação

Recomendação do meu aluno e acima de tudo amigo, Yann — Que está tirando onda na Austrália.


Sobre quadrinhos

Dos muitos podcasts sobre quadrinho, quero recomendar o Comicpod (hosteado pelo Pablo Sarmento), que nessa semana tem participação do meu amigo Raphael Fernandes, que foi convidado para falar sobre o seu personagem favorito: o Monstro do Pântano. Além do Rapha, também foram convidados a Pah Bananeira e o Rodrigo Ramos. Eles falam não sobre é qualquer Monstro do Pântano, mas sobre o Monstro do Pântano do Alan Moore.

Vale muito a pena ouvir para aprender mais sobre esse quadrinho que foi a gênese da revolução do meio. Alan Moore começa a trabalhar o personagem de maneira única, dando dimensões inimagináveis para um monstro — Trabalho de mestre!

O episódio está disponível NESTE LINK.


O evento DESENHAR JUNTO

Por conta do tempo o evento precisou ser adiado. A nova data é dia 20/07. Nos encontraremos no CCBB-RJ e daremos uma volta pelo desenhando centro, como já é habitual. O objetivo é terminamos o encontro na Praça Tiradentes, próximo a feira do lavradio, que ocorre no mesmo dia e horário.
Confirme sua presença clicando aqui.

Os contatos

Estou atualizando a minha presença online, portanto é importante ficar atento aos links:


Um grande abraço e muitos beijos.
Fel Coutinho.


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Rompendo a procrastinação

Olá, pessoal!

Hoje eu quero falar de diversos assuntos: procrastinação, agenda, diários, graffiti, quadrinhos e o que mais me ocorrer enquanto tiver aqui escrevendo. O objetivo é, como sempre, espalhar um pouco do que eu amo e/ou me impactou recentemente.

Falando em coisa boa, a última postagem do blog teve uma boa repercussão. Sinto que o meu esforço para me organizar está dando resultado, o que me deixa muito feliz. Por conta disso, peço que me mandem sempre os seus feedback’s, pois eles fazem muita diferença.


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Sobre a produção – rompendo a procrastinação

Essa foi uma semana muito positiva para a minha produção. Em primeiro lugar consegui organizar uma porção de coisa que estava de lado — uma delas a Newsletter e o Blog (o site de maneira geral). Além disso, mantive a quarta de semana de postagens ininterruptas no instagram, o que é ótimo. O engajamento nas minhas redes sociais só aumenta e percebo os trabalhos e alunos chegando por e-mail. Estou colhendo os frutos de um bom trabalho.

Agenda - ferramenta anti-procrastinação
Minha agenda pessoal – ferramenta que ajudou a deixar de procrastinar

Nada disso estaria acontecendo se eu estivesse procrastinando por aí, pensando em contos da carochinha ou tentando fórmulas mágicas que não fossem o fazer artístico e a interação com o meu público. Por isso eu digo: se você está cansado de procrastinar e não sabe bem o que fazer, começe pelo básico; organize-se.

Como sei que não é tão simples, deixo abaixo três dicas para você começar a fazer rapidinho. 

  1. Compre uma agenda;
  2. Use a agenda;
  3. ​Preocupe-se com um dia de cada vez.


Na próxima semana te passo mais três, ok? Agora… tem um ponto que queria dizer: é importante me dar um feedback ao fim da semana para que eu saiba se está funcionando. Vamos sair do marasmo? Vamos!


Diários

Uma segunda coisa que gostaria de falar, e agora falo aos artistas da minha lista (todo, hehehe), por favor, tenham um diário. Sério! Um não, dez! Diários são magníficos e tornam a vida do artista muito mais fácil, pois propiciam o escoamento das ideias instantâneamente. Eu uso alguns: uma agenda, um sketchbook, um caderno pequeno, google keep, moleskine e muitos outros.

Há alguns anos institui uma regra na minha vida: nunca sair sem um diário e um livro. E como viajo muito de ônibus, uso os tempos de viagem para ler ou registrar meus pensamentos, ideias ou anseios em meus cadernos. Alguns desses textos eu transformo em crônica que já viraram até livro.

Parece uma coisa boba ou enfadonha, mas assim que você descobrir o poder de um diário nunca mais vai deixar de usá-lo. 


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Sobre arte

Gostaria de apresentar o Reverse Graffitti: um tipo de graffiti feito ao contrario, que se faz limpando a parede. Ele surge como contraponto ao argumento da depredação do patrímônio público ou privado que se atribui à arte urbana (fato muito questionado pelos estudiosos das artes). A irônia fina do reverse graffitti está no fato do artista não depositar nada, pondo em cheque o argumento das instituições. Afinal de contas, o que o agente público poderia dizer ou como poderia autuar um artista que está “apenas” limpando seletivamente uma parede?

Alexandre Orion fazendo reverse graffiti em muro de São Paulo
Alexandre Orion em “Reverse Graffiti”

Em matéria de arte urbana somos sempre vanguarda. Não poderia ser diferente com essa modalidade, um dos precurssores dela é artista Alexandre Orion. Leia uma entrevista dele à revista Rolling Stone clicando aqui. Veja-o em ação no link abaixo.


O trabalho animal de Kumi Yamashita

Autora: Kumi Yamashita

Kumi Yamashita é uma artista visual japonesa premiada internacionalmente. A principal temática do seu trabalho/pesquisa são as sombras. É interessante como o trabalho se revela nesse jogo de luz e sombra, não? Certamente é uma experiência ainda mais rica ver ao vivo, com a possibilidade de ver em ângulos diferentes.

Autora: Kumi Yamashita
Autora: Kumi Yamashita

O trabalho de Christo e Jeanne-Claude

Parlamento alemão embalado por Christo e Jeanne-Claude

Christo e Jeanne-Clause são dois artistas europeus que fizeram escola na arte contemporânea mundial. O que me chama mais a atenção no trabalho deles é a relação com o desenho: para cada projeto eles fazem inúmeros desenhos de projeto que são vendidos para custear a execução do trabalho em escala monumental.

Assistam o video maravilhoso do canal Artikin para saber um pouco mais do trabalho dessa dupla espetacular de franceses.

Autores: Christo e Jeanne-Claude

Sobre quadrinhos

Angelo Agostini, cartunista brasileiro

Estão abertas as votações para o prêmio Angelo Agostini. O prêmio é um dos mais importantes do país, portanto, dêem uma olhada no site clicando aqui. Muitos amigos meus estão entre os concorrentes. os amigos da Editora Draco estão concorrendo com Periferia Cyberpunk e o Daniel Sousa está concorrendo junto com o Felipe Tazzo com a HQ –O Bar do Pântano (e Outras Desgraças) .

Além disso, no meio da semana rolou uma discussão muito bacana com grandes nomes do mercado nacional de quadrinhos. Você pode ver a Thread clicando aqui. Aliás é bom dizer que boa parte dos participantes da conversa estão idealizando um podcast com este que vos escreve.


Sobre os textos

Tenho pensado muito mais antes de publicar um texto, justamente pelo motivo que digo no comentário sobre as redes sociais. Por isso, decidi postá-los por aqui. Você decide se lê ou não. 😀

Abaixo um poema feito no último sábado:

“Um dia o homem percebeu
que coisas têm um tempo

Alheio a tudo,
ou quase (tudo)

Um tempo sentido
próprio ———>

Um tempo
seu.

Constante universal; tempo.”

Fel Coutinho

Mais um texto, desta vez uma prosa estranha.

Preocupado estava . Sentou-se à mesa e não fez rigorosamente nada. Não sabia o que fazer; ansiedade.

Tratou, portanto, de fazer uma carta. Não sabia a quem. Pensou em algumas pessoas, mas ninguém lhe saltou à memória ou inspirou. Bebeu um café. Olhou no celular alguma coisa desimportante. Resolveu ir à rua. Quando retornando, lembrou-se do Ricardo. Decidido a lhe escrever, sentou-se à mesa. Danou a rabiscar.
“Oi, querido! Tudo bom? Espero que sim. Sei que sim. Antes de tudo, preciso dizer que senti alguma saudade. uma do tipo estranho que impele à escrita.” Interrompeu a carta pois achou que já tinha dito tudo o que precisava dizer. Estava com saudade e sentiu vontade de escrever. E escreveu. Pronto. Está consumado.

Fel Coutinho

Agora um pouco de texto bom, com vocês, Eduardo Galeano.

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Para isso: para que eu jamais deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano

Redes sociais

Como tenho dito há meses: redes sociais precisam ser repensadas. Essa ideia se fortaleceu muito depois de ler alguns livros sobre o funcionamento das redes. E agora, passado esse tempo, tenho algumas regras para as minhas redes sociais, que passam pelo meu trabalho a arte e o que eu amo. Também decidi falar mais bem do que mal. Isso não significa não saber ou compreender os problemas do mundo, mas tentar não disseminá-los por aí para pessoas que acabaram de acordar e pegaram seus celulares…


O evento DESENHAR JUNTO

No próximo sábado (06/07) vai rolar a quarta edição do evento DESENHAR JUNTO no centro do Rio de Janeiro. Nos encontraremos no CCBB-RJ e daremos uma volta pelo desenhando centro, como já é habitual. O objetivo é terminamos o encontro na Praça Tiradentes, próximo a feira do lavradio, que ocorre no mesmo dia e horário.
Confirme sua presença clicando aqui.

Os contatos

Estou atualizando a minha presença online, portanto é importante ficar atento aos links:


Um grande abraço e muitos beijos.
Fel Coutinho.

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Moebius professor

Conhecimentos no espaço-tempo

Moebius me ensina desde que o conheci, quando ainda era um aprendiz — coisa que não mudou desde então — e desde então sou um irremediável fã do velhinho.

Mais de uma década se passou, contudo a reverência só aumenta. Sobretudo porque foi mais recentemente que comecei a me debruçar sobre os quadrinhos. Isto porque finalmente entendi algumas das minhas questões, que envolvem uma sede por aprendizado. Textos como este, onde o foco é falar sobre uma paixão, conectando saberes, são prova disso.

Ilustração de Moebius chamada Starwatcher.

Moebius: Starwatcher (1986)
Éditions Aedena/Dargaud
24.5 x 29.7cm, 104 pages

O primeiro contato

A primeira vez que vi um Moebius, tive a certeza de que estava diante de um deus, que seria irreversível a admiração. Me lembro bem do dia, que para mim, à época, foi como ver a coisa mais bonita já desenhada pelo homem —  quanto a isso, pouco mudou. Talvez a diferença seja que outros também entraram na classificação…

Ver o Moebius foi como fazer upload de informações que eu ainda não sabia digerir, mas que intuia. Um marco de antes e depois na minha vida como desenhista, sobretudo como jovem desenhista. Criou-se um paradigma. Pirei e achei difícil ver algo tão bonito quanto novamente. E foi mesmo. Só voltaria a ter impacto semelhante com mestres como Miller, Toppi, Elric, McKean, Junji Ito, e alguns outros poucos. Em outras palavras: naquele momento Moebius, se tornou meu referencial de perfeição.

Não sou mais tão jovem, tampouco deslumbrado, entretanto Moebius ainda me ensina muito. Frequentemente recorro a ele quando me deparo com um problema de desenho — o que é engraçado, porque se você olhar o meu trabalho não notará as influências explícitas, mas acredite: elas estão ali.

As leituras

Em termos de leitura, li pouco do Moebius e prometi ler mais este ano. Até o momento em que escrevo li “O homem é bom?”, “Arzach”, “surfista prateado – parábola”, “A garagem hermética” e já estou me organizando para ler o “O Incal” (parceria entre Moebius e Jodorowsky) nos próximos meses na Biblioteca Parque. Quatro livros são pouco diante do tamanho da obra do Moebius (vergonha para mim ter lido tão pouco…), isto sem falar da fase pré-moebius, que tem alguns dos maiores clássicos do autor.

Ilustração de Moebius para "O surfista Prateado" em Colaboração com Stan Lee

(Capa de surfista prateado – parábola, lançado no Brasil pela Panini.)

Moebius e a poética

Nas poucas leituras prendi muito (mestres são assim), seja sobre desenho seja sobre narrativa, e sobretudo a respeito da construção de uma poética própria — ou o mais próximo possível, já que criamos sempre a partir de amálgamas do que conhecemos, portanto, toda poética é fruto de uma pesquisa elaborada, por conseguinte, não exatamente “própria”.

O universo criado por Moebius é bastante substancial e a experiência estética dele é rica — não é incomum ao leitor de Moebius ficar hipnotizado pelo desenho a despeito do texto num primeiro momento. Vale dizer, também, que são raros os artistas com universo próprio tão coeso. Por isso ouso dizer que (e aqui me aproprio de um termo da filosofia) o trabalho de Moebius é “teleológico” — um sistema fechado em si mesmo.

Ilustração de Moebius para "Arzach"

(Página de Arzach, lançado no Brasil pela editora Nemo)

Não preciso dizer (porque já disse) que o desenho do Moebius é da maior qualidade. No entanto ele vai mais longe: é um desenho humano onde percebermos a mão humana em ação. As repetições não são mecânicas ou idênticas, há textura orgânica e os quadros são tratados em função da página.

Sendo assim, Moebius figura no panteão dos maiores desenhistas do século 20 e entre os maiores quadrinistas de todos os tempos. Abaixo podemos vê-lo desenhar em vídeo, acompanhem o primor.

Minha intuição diz que em algumas histórias Moebius apenas segue o fluxo sem muito planejamento ou respeito ao texto. Como resultado fica inferido que Moebius aprendeu também com as vanguardas do século 20. A natureza digressiva desses quadrinhos me arrebata! Por conta disso, listo abaixo algumas lições aprendidas com o mestre.

5 grandes lições que aprendi com com Moebius

  • Permitir que o inconsciente desenhe – Moebius me atentou enquanto lia o “O surfista prateado – parábola” para essa lição surrealista. De modo que atentei para conhecimentos e propostas de outros campos/artes que podemos incorporar em nossos projetos.
  • Detalhe é detalhe, não regra – Detalhe é importante, quando bem usado. Portanto, Moebius deixa claro que nem toda hora e local são adequados ao virtuosismo, ainda mais se estivermos falando de HQ. Imaginem uma cena tão detalhada que você não consiga prestar atenção em nada. Parece familiar? Pois bem…
  • Regras de estilo podem ser quebradas (e isso tem dois lados) – Em muitas histórias Moebius muda a forma de desenhar os personagens enquanto a história se desenrola. Isto demonstra duas coisas: ele segue o fluxo e se conhece. Moebius deixava os dias e humores interferirem em seu trabalho. O outro lado disso pode ser o desleixo, por isso pondero: nem todos são o Moebius (eu não sou), justamente por isso é importante avaliar se estamos seguindo o fluxo ou desleixados.

Continuando…

  • Uma obra exige tempo – Dedicação é apenas o básico para a construção de uma poética. Esta lição me foi dada quando passei meses vendo diariamente os mesmo vídeos no youtube com Moebius desenhando. O velhinho desenhava rápido, mas com uma observação minuciosa do contato entre bico de pena e o papel. Dava para perceber o carinho com que ele tratava cada traço. Acima de tudo: Xô Preguiça!
  • Nem todo desenho encaixa na história – Esta lição tem um pouco a ver com a terceira, logo, regras podem ser quebradas, porém nem todo desenho combina com toda história. Em Arzach Moebius alterna entre um desenho sofisticado nas histórias principais, enquanto usa um desenho sintético nas demais. Isto traz equilibrio através do contraste, mostrando que cada história pede um tipo de desenho. Por outro lado, também dá pra forçar o contraste de traço/história e propósito, mas isso é assunto para outro post.

A despedida e a exposição Transe-Forme

Moebius se foi em 2012, cumpriu seu ciclo. Abaixo deixo alguns vídeos sobre a exposição transe-forme de 2010, um reconhecimento do trabalho no campo da arte contemporânea. Repito: Moebius me ensina desde que o conheci. Vai continuar ensinando…

Agradeço a leitura.

Fel Coutinho é quadrinista, ilustrador , professor de desenho e licenciando em artes visuais.

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Salve Jorge!

No último mês iniciei um novo projeto, que consiste em fazer histórias em quadrinhos com uma pegada mais didática e informativa. Pegando a ideia de um antigo projeto que participei, chamei de Felcards (mas ainda é provisório), portanto gostaria de saber o que os senhores por aqui acham.

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Love, Death & Robots

A Netflix não para de surpreender. E dessa vez a boa-nova é para os amantes da animação: foi lançado na última sexta (15/03) a série “Love, Death & Robots“, capitaneadas por Tim Miller e David Fincher (dois nomes já consagrados em Hollywood).

Como amante do desenho em todas as suas possibilidades, não posso deixar de comentar sobre aqui no blog. Portanto comentarei um pouco das minhas impressões sobre os episódios, além de dar um Review sobre as técnicas e uma análise sobre a estética dos curta-metragens, que estão maravilhosos.

Num primeiro momento fica impossível não comparar com o histórico “Animatrix” e a comparação realmente faz sentido, entretanto, acho que a estética do primeiro curta força uma aproximação com os longas do início dos anos 2000.

Num segundo momento, traça-se um paralelo com “Black Mirror” porque a temática das animações é recheada de SCI-FI, niilismo, tecnologia e, como o nome diz amor, morte e robôs, ou seja, os fãs do espelho preto certamente vão curtir a séria de curtas. Também acho que a abertura e encerramento fortalecem o paralelo.

São dezoito episódios e mesmo os piores são bons, o que significa que a série é bem acima da média.

Tecnicamente, as animações são um deleite. Sério, faz tempo que não fico tão impactado com produções de animação e, apesar da maioria dos episódios serem em CGI, houve bastante espaço para o 2D, ainda que não numa roupagem clássica (o que é perfeitamente entendível, tanto no sentido das técnicas disponíveis serem muitas, quanto no sentido da produção necessitar de celeridade).

O que mais destaco como positivo, em termos visuais, foi o show de mistura de técnicas. Muitos episódios apresentam uma mix entre 3d, 2d, Cell shading e motions graphics que é simplesmente sensacional. Muitos dos episódios tem uma aparência memorável e arrisco dizer que se tornarão clássicos muito em breve.

Para a animação a série é maravilhosa, aquece o mercado e revela novas estéticas e técnicas possíveis para projetos futuros, além de provar de uma vez por todas que as animações podem ter temática adulta e contar histórias complexas. Ah, é bom ressaltar que as animações são para maiores de 18.

Abaixo um pouco sobre os episódios e como cada um me impactou, uma mais do que outros. A análise é enviesada pelo olhar de um desenhista, vale lembrar.

  1. A vantagem de Sonnie – o episódio de abertura tem um visual clássico das animações 3d com texturas menos complexas do que é possível hoje em dia, deixando claro ser uma decisão estética. A história é empolgante com uma reviravolta interessante ao fim do episódio. Nota 7/10.
  2. Os três robôs – levei algum tempo para entender que não fazia parte do mundo anterior e quando saquei já estava entretido com os personagens, que são muito carismáticos. A relação com os gatos é muito bacana também e visualmente o episódio é bacana, apesar de ser um dos menos revolucionários. 8/10
  3. A testemunha – um dos meus favoritos, é um suspense com referências BDSM que tem um visual pra lá de impactante. As escolhas gráficas são das mais acertadas da série e das que vi nos últimos anos na animação mundial. 10/10
  4. Proteção contra alienígenas – um 3d com animação em interpolação incompleta, que dá um tom de stop motion e que tem escolhas acertadas na inserção de elementos 2d. A história também é muito boa, com final distópico. 8/10
  5. Sugador de almas – tiro, porrada e bomba. Uma animação com desenho fantástico com traço próximo da escola Gobbelin, tenho quase certeza de que foi desenvolvido com o Grease pencil do Blender. Além de tudo, 2d! 9,5/10
  6. Quando o Iogurte assumiu o controle – o episódio mais cômico, o que pode si só gera surpresa e quebra o clima. Visual bonito, cartunizado e tom niilista. Os personagens me lembraram alguns desenhos da ilustradora Anna Anjos. 7/10
  7. Para além da fenda de Áquila – SCI-FI dos bons que brinca com a realidade, dando uma carga dramática existencialista sobre viagens no espaço-tempo. Lindo em muitos quesitos com final impactante. 10/10
  8. Boa caçada – animação 2d nos moldes de “Avatar” e Mulan de tirar o fôlego com tanta beleza. Fazia anos que eu não via algo tão fluído, achei maravilhoso. Para além disso, tem uma história com o feminino muito interessante. 10/10
  9. O lixão – para mim esse é o episódio mais pragmático da temporada. Tudo está no lugar, é bonito e competente, mas não é dos meus preferidos.
  10. Metamorfos – lobisomens militares brigando. É isso. Um dos que menos gostei, apesar de ser bonito e ter cenas de brutalidade que normalmente eu gostaria.6/10
  11. Ajudinha – um episódio denso que aborda alguns dos maiores medos humanos: a solidão e a finitude. Cenas fortíssimas embrulhar o estômago com uma história de resignação. 10/10
  12. Noite de pescaria – um Cellshading muito legal e uma história viajada. Acredito que a minha amiga Malu gostará mais do que eu. 8/10
  13. 13, número da sorte – SCI-FI com estética 3d e o acaso. 7/10
  14. Zuma Blue – meu episódio favorito, tanto pela história, quanto pelo visual, tem, para mim, uma aproximação com o trabalho do Alan Moore no personagem protagonista. O desenho é ESPETACULAR. MESMO! Uma coisa SUBLIME. 10/10
  15. Ponto Cego – essa animação é uma das que mais tem fôlego para se tornar um “spin-off” seriado. Tecnicamente impecável, lutas bem coreografadas, roteiro ótimo e cheio de palavrões. Ah, os palavrões… 10/10
  16. Era do Gelo – um episódio bacana sobre civilizações. A interação com atores é muito interessante. 9/10
  17. Histórias alternativas – muito bem executado, lindo. Porém seu trunfo está em deixar muito claro que indivíduos não fazem tanta diferença e que mais do que isso, as coisas tendem ao caos e à degradação. 10/10
  18. A guerra secreta – Lindo. Mesmo. Uma história épica com 3d super naturalista que deixa a gente de boca a aberta. A história também é incrível e os takes finais são uma coisa de louco. 10/10
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Henri de Toulouse-Lautrec

— um breve comentário apaixonado

Henri de Toulouse-Lautrec

Conheci o trabalho do Henri em 2011; estava na faculdade de design e fiquei encantado, mais do que isso: me identifiquei. Até então, nunca tinha visto um pintor abordando um cotidiano mais próximo, isto é, algo mais próximo da contemporaneidade; pessoas com vestimentas de uma época mais próxima da minha. Além disso, havia o experiência estética da obra: fiquei fascinado pelo acabamento e pela pincelada vigorosa do Henri, um trabalho feito com agilidade, que de alguma maneira refletia a aceleração do tempo a que estaríamos expostos a partir do século 20 (algumas das pinturas de Henri eram feitas em apenas um dia— até então era algo novo parta mim).

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TEMPO ACÚMULO

sobre olhares, obsessões e confissões

É com alegria que apresento a HQ TEMPO ACÚMULO, uma HQ experimental, com pegada existencialista e texto intimista em que faço uma homenagem ao trabalho do artista Dave McKean (uma verdadeira digressão na forma de quadrinho, que parte de efemérides em torno do dia 26 de julho e que quase inevitavelmente caminha para olhares, obsessões e confissões).

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SKETCHBOOK TOUR 2017/18

Em 2017 e 2018 eu produzi o meu primeiro caderno de artista. Foi ao mesmo tempo desafiante e recompensador adicionar às páginas experiências de desenho, pintura e um pouco do meu cotidiano. Eu espero, sinceramente, que vocês gostem do resultado. 
Um grande abraço!

Até a próxima!

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O que mudou em dez anos

Mencionei mais cedo que o blog está fazendo dez anos esse ano e, claro, muita coisa mudou. Dez anos é muito tempo, e quando se é jovem, pesa ainda mais. Eu tinha dezessete anos quando comecei o blog, e agora tenho vinte e sete. Deixei de ser um aspirante a arte para me tornar um artista e mais do que isso, um artista maduro, mais experiente. Obviamente muitos anos ainda me aguardam (espero), mas não sou mais o garoto que costumava ser. Não sou mais tão empolgado. Se você voltar alguns anos aqui vai até dar risada, porque é engraçado, diante das minha reações com as mínimas coisas. Dez anos me deixaram mais cascudo, menos frágil, mais forte. Me tornei homem, marido e dono de casa. Aprendi a pintar com óleo, acrílica, aquarela, guache, photoshop, painter, clip paint, spray, pva e além disso, sei animar, diagramar e editar video. Aprendi tudo o que eu queria e um pouco mais. Muito mais. Hoje, diferente do passado, não me faltam papéis. Tenho mesa, cadeira, computador e tenhoalgun dos livros que eu sempre quis ter. Muita coisa mudou, mas eu estou aqui. Ainda sinto que sou eu mesmo. Não me trai tanto assim. Ainda bem. Ainda estou aqui. E agradeço por você também estar.

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