Andando em círculos

Andando em círculos

fragmentos para um novo livro

Em 2009 eu estava rodando pela cozinha da casa de uma ex-namorada. Era um dia quente e estava esperando alguma coisa que não me lembro. Talvez ela estivesse se aprontando ou aprontando algo para comermos. Ou ainda, talvez, eu estivesse falando ao telefone. O fato importante é que em algum momento o pai da menina se aproximou da cozinha onde eu estava e me fez a seguinte pergunta: “Você está fazendo uma macumba, Felipe?” e deu uma leve risada. Como eu não entendi, ele retrucou: “É que você fica andando em círculos, parece até que está fazendo uma macumba, uma feitiçaria…”. Naquele momento eu só acenei que não, disse que era uma mania minha andar em círculos, que fazia desde criança. Talvez se eu estivesse mais atento a mim mesmo naquele momento, teria agradecido ao Sr. Sérgio, mas eu era novo demais. Novo como uma muda extirpada de suas origens que, quando posta à meia sombra em um novo jarro, ainda não vingou, não deu raízes. Essas raízes só vingariam anos depois, quando do falecimento da minha avó materna. Era ela a planta maior transportada por quilômetros em pau-de-arara do Ceará para o Rio de Janeiro. E quando ela partiu, doou para mim, tal qual as plantas em uma pequena floresta pantanosa em Londres1, um pouco dos seus últimos nutrientes. Foi a partir deles que as minhas raízes começaram a vingar, mas não sem muitos percalços. Acontece que refazer esse caminho não é nada fácil. Estou tentando ter uma fração da força que ela teve para conseguir se manter viva.

Passaram-se mais ou menos onze anos desde que o Sr. Sérgio me fez aquela pergunta (carregada de preconceito, por sinal), e hoje sei o que é o Torém: uma dança – um ritual sagrado – dos Tremembés, quase extinta no norte do Ceará, onde dança-se andando em círculos conjunta e fervorosamente. Pelo que encontrei em minhas pesquisas, os Tremembés de Varjota chegaram a deixar de fazer o Torém e voltaram recentemente, quando se revincularam com os Tremembés de Almofala, que ficam aldeados a aproximadamente 60 km à sudoeste2. O curioso é que eu sempre andei em círculos para pensar melhor. É algo que faço desde criança. Nessas caminhadas não há a intenção de chegar a algum lugar necessariamente3. Minha mãe sempre me disse que eu a deixava tonta rodopiando por todos os lugares. Como disse, sempre achei que andar em círculos me ajudava a pensar melhor, por isso que continuo fazendo. E na última sexta-feira comecei a correr em círculos enquanto ouvia música em casa, dessa vez com menos roupas, uma espécie de intensificação da coisa, como se procurasse resgatar as energias de que preciso para enfrentar um sem número de dias a mais de isolamento, como se não bastassem esses seis meses. É por isso que hoje entendo que andando em círculos eu penso melhor porque penso junto, não sozinho. Foram anos para perceber que um hábito pode revelar muito sobre as nossas raízes, nossa ancestralidade. Todo o tempo estiveram comigo, só demorou trinta anos para aprender a ouvir, sentir.

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Enquanto escrevia senti a necessidade de pausar e passar uma café. Quase não bebo café, mas hoje precisava. Também fiz uma água de limão com gengibre. Fiz o café. Bem forte. Coei em um coador de pano, que é o que uso também para extrair o leite de coco que bebo. Enquanto passava o café e o cheiro me invadia fiquei me lembrando da voz arranhada da minha avó.

Quantos gritos sufocados podem conter uma voz arranhada? É para elas, essas vozes, que escrevo.

Já não estou mais sozinho.

1Ler artigo “Os subterrâneos”, de Robert Macfarlane, publicado na revista Piauí em sua edição 164. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/os-subterraneos/

2 Ambas sofrem com as ações da empresa Ducoco desde os anos 70. Não à toa a minha avó precisou fazer a sua diáspora com os dezesseis filhos para o Rio de Janeiro acompanhada do meu avô.

3Hoje penso que pratiquei instintivamente a caminhar como meditatação, algo como o livro “Walkscapes. O caminhar como prática estética, de Francesco Careri” que a professora Isabel Carneiro me apresentou.

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