Publicado em 2 comentários

Moebius professor

Conhecimentos no espaço-tempo

Moebius me ensina desde que o conheci, quando ainda era um aprendiz — coisa que não mudou desde então — e desde então sou um irremediável fã do velhinho.

Mais de uma década se passou, contudo a reverência só aumenta. Sobretudo porque foi mais recentemente que comecei a me debruçar sobre os quadrinhos. Isto porque finalmente entendi algumas das minhas questões, que envolvem uma sede por aprendizado. Textos como este, onde o foco é falar sobre uma paixão, conectando saberes, são prova disso.

Ilustração de Moebius chamada Starwatcher.

Moebius: Starwatcher (1986)
Éditions Aedena/Dargaud
24.5 x 29.7cm, 104 pages

O primeiro contato

A primeira vez que vi um Moebius, tive a certeza de que estava diante de um deus, que seria irreversível a admiração. Me lembro bem do dia, que para mim, à época, foi como ver a coisa mais bonita já desenhada pelo homem —  quanto a isso, pouco mudou. Talvez a diferença seja que outros também entraram na classificação…

Ver o Moebius foi como fazer upload de informações que eu ainda não sabia digerir, mas que intuia. Um marco de antes e depois na minha vida como desenhista, sobretudo como jovem desenhista. Criou-se um paradigma. Pirei e achei difícil ver algo tão bonito quanto novamente. E foi mesmo. Só voltaria a ter impacto semelhante com mestres como Miller, Toppi, Elric, McKean, Junji Ito, e alguns outros poucos. Em outras palavras: naquele momento Moebius, se tornou meu referencial de perfeição.

Não sou mais tão jovem, tampouco deslumbrado, entretanto Moebius ainda me ensina muito. Frequentemente recorro a ele quando me deparo com um problema de desenho — o que é engraçado, porque se você olhar o meu trabalho não notará as influências explícitas, mas acredite: elas estão ali.

As leituras

Em termos de leitura, li pouco do Moebius e prometi ler mais este ano. Até o momento em que escrevo li “O homem é bom?”, “Arzach”, “surfista prateado – parábola”, “A garagem hermética” e já estou me organizando para ler o “O Incal” (parceria entre Moebius e Jodorowsky) nos próximos meses na Biblioteca Parque. Quatro livros são pouco diante do tamanho da obra do Moebius (vergonha para mim ter lido tão pouco…), isto sem falar da fase pré-moebius, que tem alguns dos maiores clássicos do autor.

Ilustração de Moebius para "O surfista Prateado" em Colaboração com Stan Lee

(Capa de surfista prateado – parábola, lançado no Brasil pela Panini.)

Moebius e a poética

Nas poucas leituras prendi muito (mestres são assim), seja sobre desenho seja sobre narrativa, e sobretudo a respeito da construção de uma poética própria — ou o mais próximo possível, já que criamos sempre a partir de amálgamas do que conhecemos, portanto, toda poética é fruto de uma pesquisa elaborada, por conseguinte, não exatamente “própria”.

O universo criado por Moebius é bastante substancial e a experiência estética dele é rica — não é incomum ao leitor de Moebius ficar hipnotizado pelo desenho a despeito do texto num primeiro momento. Vale dizer, também, que são raros os artistas com universo próprio tão coeso. Por isso ouso dizer que (e aqui me aproprio de um termo da filosofia) o trabalho de Moebius é “teleológico” — um sistema fechado em si mesmo.

Ilustração de Moebius para "Arzach"

(Página de Arzach, lançado no Brasil pela editora Nemo)

Não preciso dizer (porque já disse) que o desenho do Moebius é da maior qualidade. No entanto ele vai mais longe: é um desenho humano onde percebermos a mão humana em ação. As repetições não são mecânicas ou idênticas, há textura orgânica e os quadros são tratados em função da página.

Sendo assim, Moebius figura no panteão dos maiores desenhistas do século 20 e entre os maiores quadrinistas de todos os tempos. Abaixo podemos vê-lo desenhar em vídeo, acompanhem o primor.

Minha intuição diz que em algumas histórias Moebius apenas segue o fluxo sem muito planejamento ou respeito ao texto. Como resultado fica inferido que Moebius aprendeu também com as vanguardas do século 20. A natureza digressiva desses quadrinhos me arrebata! Por conta disso, listo abaixo algumas lições aprendidas com o mestre.

5 grandes lições que aprendi com com Moebius

  • Permitir que o inconsciente desenhe – Moebius me atentou enquanto lia o “O surfista prateado – parábola” para essa lição surrealista. De modo que atentei para conhecimentos e propostas de outros campos/artes que podemos incorporar em nossos projetos.
  • Detalhe é detalhe, não regra – Detalhe é importante, quando bem usado. Portanto, Moebius deixa claro que nem toda hora e local são adequados ao virtuosismo, ainda mais se estivermos falando de HQ. Imaginem uma cena tão detalhada que você não consiga prestar atenção em nada. Parece familiar? Pois bem…
  • Regras de estilo podem ser quebradas (e isso tem dois lados) – Em muitas histórias Moebius muda a forma de desenhar os personagens enquanto a história se desenrola. Isto demonstra duas coisas: ele segue o fluxo e se conhece. Moebius deixava os dias e humores interferirem em seu trabalho. O outro lado disso pode ser o desleixo, por isso pondero: nem todos são o Moebius (eu não sou), justamente por isso é importante avaliar se estamos seguindo o fluxo ou desleixados.

Continuando…

  • Uma obra exige tempo – Dedicação é apenas o básico para a construção de uma poética. Esta lição me foi dada quando passei meses vendo diariamente os mesmo vídeos no youtube com Moebius desenhando. O velhinho desenhava rápido, mas com uma observação minuciosa do contato entre bico de pena e o papel. Dava para perceber o carinho com que ele tratava cada traço. Acima de tudo: Xô Preguiça!
  • Nem todo desenho encaixa na história – Esta lição tem um pouco a ver com a terceira, logo, regras podem ser quebradas, porém nem todo desenho combina com toda história. Em Arzach Moebius alterna entre um desenho sofisticado nas histórias principais, enquanto usa um desenho sintético nas demais. Isto traz equilibrio através do contraste, mostrando que cada história pede um tipo de desenho. Por outro lado, também dá pra forçar o contraste de traço/história e propósito, mas isso é assunto para outro post.

A despedida e a exposição Transe-Forme

Moebius se foi em 2012, cumpriu seu ciclo. Abaixo deixo alguns vídeos sobre a exposição transe-forme de 2010, um reconhecimento do trabalho no campo da arte contemporânea. Repito: Moebius me ensina desde que o conheci. Vai continuar ensinando…

Agradeço a leitura.

Fel Coutinho é quadrinista, ilustrador , professor de desenho e licenciando em artes visuais.

Para mais textos como esse, contribua no PADRIM.
Se houverem dúvidas ou sugestões, em contato clicando aqui.

Para lerem mais, inscrevam-se na Newsletter clicando aqui

2 comentários sobre “Moebius professor

  1. Parábola foi a primeira história que eu li escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius. Quando terminei fiquei encantado não apenas pela narrativa como pela arte única e inquestionável. É uma história que leio e releio incansavelmente. Obra de dois ícones.

  2. Pô, nem sabia disso, meu caro. Ótimo saber que além de meu amigo você também tem ótimo gosto. Um grande abraço e obrigado pelo comentário no blog.

    Tem alguma sugestão de post para a próxima semana? Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.