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Henri de Toulouse-Lautrec

— um breve comentário apaixonado

Henri de Toulouse-Lautrec

Conheci o trabalho do Henri em 2011; estava na faculdade de design e fiquei encantado, mais do que isso: me identifiquei. Até então, nunca tinha visto um pintor abordando um cotidiano mais próximo, isto é, algo mais próximo da contemporaneidade; pessoas com vestimentas de uma época mais próxima da minha. Além disso, havia o experiência estética da obra: fiquei fascinado pelo acabamento e pela pincelada vigorosa do Henri, um trabalho feito com agilidade, que de alguma maneira refletia a aceleração do tempo a que estaríamos expostos a partir do século 20 (algumas das pinturas de Henri eram feitas em apenas um dia— até então era algo novo parta mim).


Henri de Toulouse-Lautrec

“Eu pinto as coisas como elas são. Eu não comento. Eu registro.”

Também houve algo ligado ao ato desenhar em si: desenhar o que se vê e depois lapidar no ateliê, desenhar com linhas vigorosas – um desenho solto, fluido, onde o autor assumia as distorções típicas do desenho à mão livre. Além disso, à época, via algum glamour em não tomar os cuidados necessários para a preservação da obra, coisa que eu também fazia. Essas e outras questões me fizeram ficar apaixonado pela obra do Henri de Toulouse-Lautrec, a ponto de ser uma das minhas maiores referências por alguns anos. Me tornei fã de imediato.

Novas descobertas

Consequentemente, depois da aula, pesquisei mais sobre sua obra, mas também sobre a vida. Soube da infância reclusa, por exemplo. Entretanto, o que determina de fato a minha identificação é a pincelada, o tratamento despretensioso com as ferramentas e suporte. Henri não esperava as condições ideais para pintar e isso me ensinou muito. Me ensinou porque eu não tinha, de fato, as condições ideias para pintar e eu já não podia esperar, sob o risco de comprometer a possibilidade trabalhar produzindo. Nesse quesito, destaco a importância de tê-lo conhecido naquela época. Foram muitas as “aulas” que tive com o baixinho.

A agilidade com que Henri trabalhava as suas pinturas ao vivo, observando in loco, para depois finalizá-las em seu ateliê abriram muitas possibilidades. Existe aqui um equilíbrio entre a liberdade do plen air e a frieza da pintura no ateliê. Poderia dizer que, nesse caso, Henri é uma junção do Apolíneo e o Dionisíaco Nietzschianos.

Na cama, o beijo. Óleo sobre papel cartão. Henri de Toulouse-Lautrec. 1892.

Henri, a vida boêmia, o Cabaret e o amor lésbico

Mesmo com todas as problemáticas das representações femininas que atualmente discutimos no campo das artes, pode-se dizer que Henri de Toulouse-Lautrec foi um retratista do amor lésbico do início do século 20. Apesar de não pesquisar a fundo sobre como se davam essas representações, o que posso observar é que Lautrec foi um cronista da vida boêmia de sua época. E como em uma de suas freses: “Eu pinto as coisas como elas são. Eu não comento. Eu registro.”, acredito que tenha feito um bom trabalho, tanto no que diz respeito à vida boêmia, cabaret ou ao amor lésbico. As representações não são fetichizadas, pelo menos ao meu ver, e são sensíveis, captam momentos de intimidade raros que só são possíveis se houver intimidade entre o artista e os retratados.

Nos retratos das artistas do Cabaré, das prostitutas e de outras figuras socialmente marginalizadas, Touluse-Lautrec vai para além do trabalho do retratista e capta nuances que nos contam um pouco sobre as histórias das retratadas. Há cem, ele anos fez o trabalho que hoje as agências e escolas técnicas adoram chamar “storytelling”. Entretanto, aqui prefiro o termo “cronista”. Isso porque vejo no trabalho dele uma poesia que normalmente não vejo nos termos importados ou nos trabalhos, cuja a finalidade são estritamente a comunicação. Henri não está diretamente comprometido com ela, contudo, compromete-se com a poética de sua arte.

Recomendo que pesquisem mais sobre as pinturas dessa época e sobre as personagens do Cabaret retratadas. Abaixo deixo um video sobre “La Clownesse Cha-u-kao”, uma das mais icônicas figuras retratadas por Lautrec (diversas vezes, por sinal) e que tive a honra de ver ao vivo.

A oportunidade de vê-lo ao vivo

Ver pessoalmente algumas de suas obras foi uma das coisas mais incríveis que me aconteceram. Fiquei fascinado e super emocionado. Me senti em contato direto com o mestre, como numa revelação, uma coisa metafísica. Também, pudera! Ver, no mesmo dia, mestres como Van Gogh, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Seurat,  Matisse, ao vivo, e pela primeira vez, com certeza haveria de ser inesquecível. A exposição responsável por esse momento foi chamava-se “O triunfo da cor. O pós-impressionismo: obras-primas do Musée d’Orsay e do Musée de l’Orangerie” que ocorreu no CCBBRJ, se não me engano, no fim de 2016.


O Toilette . Óleo sobre papel cartão. 67 cm × 54 cm. Henri de Toulouse-Lautrec. 1896. Para mais informações clique aqui.

Aquele dia foi inesquecível, pois de fato, aprendi muito. Dentre as obras que pude observar, estavam “O Toilette” (que você pode ver acima), nela pude perceber com mais clareza a respeito do ritmo de produção do Lautrec. Nessa perspectiva: pintar ao vivo e depois retocar no ateliê (algo que hoje faço com frequência), a exposição me despertou para a prática, coisa que mantinha adormecida por, talvez, um marasmo produtivo. Entretanto, de coração, essa não foi a coisa mais importante que a exposição me acrescentou. O que de fato mudou o meu olhar naquele dia foi a experiência de observar calmamente aguardando, sem ressalvas, ensinamentos que adviriam das pinturas. Decerto nada mágico aconteceu, porém, acho que naquele dia fiz pela primeira vez o exercício de desacelerar e observar, no mínimos detalhes, uma imagem. E isso, de fato, mudou (muito!) o meu olhar sobre a arte.

Como disse antes, não há como passar “incólume” a tantos mestres. Ainda bem.

Os desdobramentos da obra no século 20

Essa parte do post deveria se chamar “especulações”, portanto, me perdoem por qualquer anacronismo que eu possa cometer por aqui. Peço que entendam que eu estou fazendo o melhor que posso para compartilhar aquilo que amo com vocês. Por outro lado, preciso dizer que essa análise é multidisciplinar. Sou um cara que gosta de rock, arte, quadrinhos, heavy metal, literatura e muito mais coisa: é inevitável que todas essas coisas coexistam por aqui. O que vocês lerão abaixo são algumas propostas do que eu, como indivíduo, vejo nas artes e cultura pop como influenciados por Lautrec, para além do obvio, é claro. Como disse antes: o texto não tem finalidades acadêmicas.D

Desdobramentos da obra no século 20 — especulações

Tenho a impressão de que se ele tivesse vivido mais tempo, Lautrec teria se aventurado na arte da animação e dos quadrinhos. Henri morreu em 1901 e os primeiros “filmes” de animação saíram em 1907. Faço essa especulação porque vejo semelhanças entre o traço resumido da arte gráfica de Lautrec com o traço dos primeiros desenhos animados surgidos. Acredito, por exemplo, que o desenho de Henri para os cartazes influenciou o Disney e os demais cartunistas. Abrem-se aqui duas ramificações influenciadas por Lautrec: os quadrinhos e a animação. E é por isso que me arrisco a dizer que Henri teria se embrenhado também na animação e nos quadrinhos.

Na cama. Óleo sobre papel cartão. 1893. Museu D’orsay

Também devo dizer que noto uma influência de Toulouse-Lautrec em Al Hirschfeld (ilustrador e caricaturista influente no mercado editorial americano). Acredito que tudo isso está ligado à economia de meios inerente ao trabalho da arte gráfica. Explico: numa arte que visa a fácil reprodução, detalhes “desnecessários” não são bem-vindos, pois comprometeriam a facilidade de reproduzir, a essa restrição na execução de uma obra, normalmente chamamos de economia de meios, um termo bauhausiano, justamente pela ideia da industrial da escola, o que é totalmente ligado a reprodução em larga escala.

esquerda, Lautrec; à direita, Al Hirschifeld

Falando Al Hirschifeld, recomendo o filme Rapshsody In Blue (a animação é influenciada pelo traço do ilustrador), do filme Fantasia 2000 da Disney, que você pode ver no youtube clicando aqui.

Conclusão

Fica clara a minha relação com o trabalho do Henri depois passado o texto. As influências e lições extrapolam o campo do desenho, da pintura ou da arte em si. Penso que toda a poética do artista me influencia, no sentido de entender a arte como efêmera e tratar o desenho como uma espécie de crônica daquilo que nos cerca. Como se pode ver, Henri de Toulouse-Lautrec segue a me influenciar passados mais de cem anos da sua morte. É como dizem: verdadeiros artistas são eternos.

Fica o meu agradecimento. Salve Henri de Toulouse-Lautrec!

Links e referências